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Nota do Editor: Mário Luiz (Marinho) Bastos é um personagem notório nas noites de Curitiba. Seu fantasma costuma percorrer becos escuros nas madrugadas curitibanas, e alguns curitibocas contam, muitas vezes apavorados, ter ouvido risadas sarcásticas e estrondosas onde somente o silêncio obsequioso dos cemitérios é ouvido. Entre tilintares de copos de cerveja e acaloradas discussões, ele se diverte escrevendo histórias vividas ou imaginadas. Em outra encarnação, teria sido psicólogo, supostamente empregando seus talentos na Secretaria de Estado da Educação do Paraná. É sócio fundador do Clube dos Canalhas, instituição de merecida má fama no território mal definido que se situa entre o Paraná Clube, na Avenida Kennedy, e o Clube Athletico Paranaense, na Praça Afonso Botelho. Neste território você o encontrará, no Bar Anga. Boa leitura.
E no sétimo copo, o Verbo se retirou.
Bati o cartão no relógio-ponto às dezessete horas em ponto. Entrei no Fusca e segui direto para casa. Pelo retrovisor, a Secretaria de Educação diminuía; um prédio cansado que, aos poucos, ficava para trás. Não era entusiasmo o que eu sentia, mas curiosidade — uma curiosidade quase clínica. A Psicologia exige isso; é algo fundamental para o exercício da minha formação.
Naquela noite, encontraria Deus no Bar Anga. Já havia encontrado, nesse mesmo local, outras personalidades como Freud, Nietzsche e amigos. Rir e sentir tristeza faz parte desses encontros, porém, receber Deus… estou achando o máximo. Espero apenas que ele não dê uma de Tim Maia.
O aviso viera seco, burocrático, como tudo que atravessa o céu antes de chegar à Terra:
O encontro será no local combinado: Bar Anga. Horário celestial: 19:00 horas. — Assinado por alguma instância intermediária que nunca assume a responsabilidade.
Em casa, afaguei os cães. O banho não purificou nada; apenas removeu o cansaço do dia. Enquanto a água caía, pensei nesses ciclos políticos que se repetem com novos nomes e os mesmos efeitos. Lembrei do presidente Bush, dos Estados Unidos, recusando-se a ratificar o Protocolo de Quioto. É inacreditável o egoísmo do capitalismo. Saí do banho com a sensação conhecida de que o mundo não melhora, apenas insiste.
Estava a me enxugar quando a minha Italiana chegou da escola. Lavava as mãos quando perguntou, quase como quem confessa:
— A pedagogia é um saber técnico?
A pergunta vinha pesada demais para ser casual. Respondi com o discurso que se espera de alguém treinado para responder:
— É ciência. Reflexão sobre a prática. Instrumento de transformação.
Parei. Olhei aqueles olhos verdes que sustentavam a casa mais do que qualquer salário.
— Mas é no cotidiano que ela acontece — acrescentei, já sabendo que nenhuma teoria resolveria o cansaço.
Ela me beijou. Um gesto simples. Definitivo. Por um instante, considerei desmarcar o encontro com Deus. Não por fé, mas por lucidez.
Camisa branca. Jeans. O ritual mínimo. O rádio ligado no caminho. Tim Maia, com seu vozeirão de baixo-barítono, atravessou todo o Fusca carregando minhas energias: “Quando o inverno chegar…”
Estacionei perto do Bar Anga. O flanelinha Bambu Albino, vestindo uma camisa surrada do Paraná Clube, veio em minha direção e pediu a cerveja da noite. Prometi — e promessa é dívida. Há um certo aconchego em ver a gravidade perder o sentido. É assim que me sinto ao entrar no Bar Anga: entrei no avesso do mundo e me sinto em casa. Puxo o oxigênio até arder meus pulmões; o mundo fica do lado de fora, e o que importa começa ali dentro.

Adentro. Cumprimento o Sr. Eduardo, português de fino trato:
— Boa noite, Sr. Edu.
Com um largo sorriso e sotaque da terrinha, ele diz:
— Seja bem-vindo.
Dirigi-me ao meu lugar habitual e me aboletei. À frente da mesa, a bela Morena. Flash Gordon, o garçom mais antigo da cidade — talvez do século —, caminhava com a solenidade de quem já serviu reis e enterros. Pedi cerveja. Ele assentiu com a cabeça, como quem compreende mais do que pergunta. Fiz meu brinde solene: à fonte, que nunca nos falte.
O primeiro copo foi ingerido rapidamente; senti aquela sensação de felicidade, o neurotransmissor do prazer liberando dopamina. O bar acordava devagar. Música ao fundo (Banda Sambastos). Conversas sobrepostas. O cotidiano em suspensão. O tempo escoava sem preocupações.
Então… a luz mudou. Não foi um clarão. Foi um deslocamento. Como se o ar tivesse decidido prestar atenção. Um cheiro antigo, resinoso. Silêncio.
Flash, sempre soltando suas frases de efeito, murmurou:
— Hoje ninguém sai ileso.
Ele entrou. Sem túnica, sem trovão. Apenas um homem corpulento, bem-vestido, que ocupava o espaço como se sempre estivesse ali. Cabelos grisalhos como quem usa Grecin 2000. Olhar atento demais para ser humano.
Sentou-se à minha frente. Estendeu a mão, cumprimentou-me e puxou a cadeira. O Bar Anga estava em sua plenitude.
— Vinho — disse. E pão.
O pedido chegou antes de ser feito. Flash tremia ao servir. Deus segurou-lhe a mão:
— Você fez o que pôde. Eu sei que é vinho de Santa Felicidade.
O velho Flash se afastou enxugando os olhos. Deus serviu o vinho. Não brindou. Deu um gole e, sem perder tempo, instigou:
— Pergunte. Mas não pergunte pequeno.
Respirei. Olhei nos seus olhos. E lá vamos nós.
— Existe céu e inferno?
Ele sorriu de canto:
— Céu e inferno são metáforas mal cuidadas. Vocês insistem em dar endereço ao que é estado. O inferno não é para onde se vai; é o que se carrega.
Bebeu um gole.
— E o céu?
— É raro. Acontece quando alguém consegue ficar em paz sem precisar vencer ninguém.
Tomei um copo de cerveja e Deus tomou uma taça de vinho.
— E a eternidade?
Ele olhou em volta: o bar, os copos, as pessoas.
— Eternidade é um erro de tradução. O que existe é duração. Vocês inventaram o infinito porque não suportam o fim.
— Então tudo acaba?
— Tudo muda. O fim é apenas uma forma humana de organizar o medo.
Coloquei cerveja no meu copo e fiquei observando a condensação por alguns segundos.
— E o universo? — perguntei.
— Há sentido nisso tudo?
Ele riu baixo, e observei que tinha um sorriso cativante.
— O universo não tem obrigação de fazer sentido. Vocês precisavam dele para justificar a própria angústia.
Encheu meu copo e eu enchi a taça dele.
— Criou tudo isso sabendo que daria errado?
— Claro. Se desse certo, não haveria pergunta. Sem pergunta, não haveria consciência.
— Somos um experimento?
— Não. Vocês são uma tentativa.
— Valeu a pena?
Ele me olhou sem ironia, sem jogo.
— Ainda não sei. Por isso continuo aparecendo em bares.
Tomou seu sétimo copo de vinho. Percebi que havia levado o xeque-mate. Dei um sorriso e pedi um abraço.
Silêncio. Algo parecido com asas se moveu no fundo do salão. O tempo do encontro se fechava. Arrisquei a última pergunta — pequena, honesta. Estufei o peito e soltei a pérola:
— Deus! E o Paraná Clube? Vai ser campeão brasileiro?
Ele riu. Uma gargalhada limpa, humana demais para ser divina.
Depois, apenas fumaça.
O bar voltou ao normal. A música seguiu. As conversas retornaram.
Terminei a cerveja. Naquela noite aprendi algo simples: Deus não é cruel. É apenas irônico.

Mário Luiz Bastos é psicólogo e escritor.