Foz carece de uma linha do tempo

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“O futuro se faz agora e cada erro é uma vitória pois a derrota não existe. Não há conquista sem labuta. A vida é uma infinita luta onde só perde quem desiste ” – Douglas Rafael

Zé Beto Maciel

Li com a devida atenção o artigo do empresário José Elias Castro Gomes sobre as resistências que sofreu na tentativa, na sua análise, de pautar pela Secretaria da Transparência e Governança uma agenda no governo municipal sem vícios da política voltada ao varejo e que não consegue resolver gargalos e problemas históricos de Foz do Iguaçu. 

Castro Gomes destaca ainda três pontos: a licitação da concessão do Parque Nacional do Iguaçu (an passant), da encruzilhada que se encontra o sistema do transporte e de sua proposta de criar um fundo de compliance. E ainda, da falta de um plano estratégico por parte do poder público que resulte em desenvolvimento e na importância de Foz do Iguaçu nos planos estadual e nacional. 

O artigo reflete, embora José Elias não o diga explicitamente, uma certa frustração depois de 13 meses na experiência de um empresário na administração pública. O setor privado, diga-se, é diferente do espaço público que tem regras mais rígidas para se tornar qualquer decisão e sempre está afeito aos interesses políticos, legítimos ou não, nobres ou não tão nobres assim.

A experiência de administrações de perfil empresarial em gestões públicas se revelaram um fracasso – tem vários exemplos dessas tentativas – como também fracassaram os governos voltados aos tecnocratas e ao academicismo. O ideal, por mais contraditório que possa ser, é um mix desses perfis.

Há uma máxima que pretende afastar a criminalização e até a demonização da atividade política que diz que “tudo o que você faz é político”. Esse conceito dá uma amplidão ao significado semântico da palavra. Somos políticos em todas as nossas relações e ocasiões, na família, com os amigos, na escola, no trabalho, quando compramos ou vendemos algum serviço ou bem. O homem é um animal político, já dizia Aristóteles, e geralmente, ainda se diz, que político é as suas convicções e circunstâncias.

A reflexão de Castro Gomes se dá na esteira de 108 anos da cidade e merece também um diapasão.

Foz do Iguaçu, como diz a piada comum nas rodas de conversas, está coalhada de professores de deus – não é caso de José Elias Castro Gomes – que sabem de tudo, principalmente às questões atinentes ao poder público, têm soluções e respostas para qualquer tipo de problema e, invariavelmente, criticam e sapateiam sobre o que acham ilgeal, imoral e que engorda. 

As análises dos engenheiros de obra pronta são, na maioria das vezes, descontextualizadas, rasas e parciais, típicas do moralismo udenista que objetifica a política como um mal encravado entre nós. Como diriam os punks das antigas, uma coisa tosca, sem olhar para o próprio umbigo e onde o inferno são os outros.

Dias atrás, um jornalista relatava sobre as novas filiações ao MDB e lembrei-o da importância do partido na retomada democrática do país e no retorno das eleições diretas à prefeito em Foz na década de 1980. Que o MDB elegeu três prefeitos seguidos (Dobrandino da Silva por duas vezes e Álvaro Neumann) a partir de 1985 e voltou a comandar a prefeitura com Samis da Silva a partir de 2001. Que ainda protagonizou a política local, elegendo bancadas expressivas na Câmara de Vereadores, deputados estaduais e deputados federais. 

O perfil dos governos emedebistas foi popular. Dobrandino da Silva interviu no transporte público no primeiro ano da sua administração. Pavimentou e duplicou avenidas importantes como a República Argentina e a General Meira e ainda iniciou a Avenida Beira Rio. Os governos do MDB tiveram erros? Evidente que sim. Como toda gestão pública e como todos na vida pessoal de cada um.

Outro jornalista escrevia que a pavimentação das avenidas JK, Paraná e Jorge Schimmelpfeng fora custeada na década de 1980 pela Itaipu Binacional. Ledo engano. As obras foram financiadas pelo Prodopar (Programa de Desenvolvimento do Oeste do Paraná) e cada morador pagou o asfalto conforme a testada do seu imóvel.

Uma outra discussão que tomou conta das redes sociais apontava que a Fartal mudou da 3ª pista da JK para o CTG Charrua por motivações políticas. Outro engano. A primeira feira, uma iniciativa da prefeitura e da Itaipu Binacional, foi realizada na primeira quadra da Avenida Brasil após o cruzamento com a Avenida Jorge Schimmelpfeng. Já no segundo ano, por excesso de público, mudou para a JK e pelo mesmo motivo para o CTG Charrua. 

Foi na Fartal da JK que foi feita uma eleição para prefeito em 1982 e o eleito foi o marujo Quati. E foi na JK que se realizou um dos primeiros comícios da Diretas Já em que um operário levou alguns safanões por se dizer comunista. 

Lembro ainda que na minha infância, boa parte da cidade se reunia na festa de São João no pavilhão da Igreja Matriz e hoje é praticamente impossível.

Fiz questão de rememorar esses fatos porque considero fundamental que todas as questões à procura de soluções em  Foz merecem uma linha do tempo, senão o debate fica, como disse anteriormente, superficial. 

Uma linha do tempo pode explicar as razões porque temos um sistema de transporte urbano na situação que está. 

Uma linha do tempo vai apontar as razões porque 1,8 mil famílias foram ocupar uma área no Porto Meira e outras tantas são empurradas a morar em alagadiços, beiras e margens de rios e córregos, em áreas insalubres e impróprias para habitação e até porque o déficit habitacional é ainda tão alto. 

Uma linha do tempo vai mostrar porque os bairros da cidade são cortados pelos rios bostinhas como acontece no Porto Meira e porque as construções de empreendimentos avançaram sobre o rio Boicy, Arroio Monjolo e continuam avançando nos cursos de água da cidade. 

Uma linha do tempo pode indicar porque a média salarial da cidade, na casa dos R$ 2 mil antes da pandemia e agora R$ 1,5 mil, é tão baixa e também mensurar a predação econômica que sofreu de 1970 para cá.

E uma linha do tempo vai revelar onde estavam os atores da política local, o que defendiam, suas ações e posições no decorrer dos anos;

Fábio Campana, na série de livros que escreveu, apontava para uma saudosa Foz do Iguaçu, uma região onde as pessoas guardavam seus segredos e procuravam viver uma nova vida. 

Nunca na história, Foz precisa tanto de um olhar que revele sua identidade, longe das espertezas da terra, e mais próximos da vocação do seu verdadeiro destino: uma cidade que construiu sonhos e que tem na sua incomparável beleza, um bem maior que chama a atenção de todo o planeta.

*Zé Beto Maciel é iguaçuense e jornalista*

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