Por José A. Moura Neto:
Cuidar dos vulneráveis – esse é o tema do Dia
Mundial do Rim em 2023. Celebrado na segunda
quinta-feira de março, a campanha é coordenada no
Brasil pela Sociedade Brasileira de Nefrologia. O
País é líder em ações há alguns anos, com atividades
de conscientização e prevenção, e conta com vasto
apoio de nefrologistas, profissionais de saúde e
formadores de opinião. Apesar dos números
expressivos, ainda há um longo caminho para o
ideal, tanto na conscientização sobre as doenças
renais quanto no cuidado aos vulneráveis.
A doença renal crônica atinge 1 em cada 10 pessoas.
Estima-se que, no Brasil, mais de 20 milhões de
pessoas sejam acometidas – e a maioria não sabe. A
doença, que tem como principais causas a pressão
alta e o diabetes, pode ser assintomática em seus
estágios iniciais e intermediários. Apenas nos
estágios mais avançados, quando o tratamento não
costuma ser eficaz em lentificar a progressão da
doença e alterar os seus desfechos, sinais e
sintomas da disfunção renal costumam aparecer.
Diminuição da produção de urina, edema, fadiga,
falta de ar, sonolência e confusão mental podem ser
alguns dos sintomas. No estágio mais avançado da
doença ocorre falência renal, quando se tornam
necessárias terapias para substituir a função do rim,
como hemodiálise, diálise peritoneal ou transplante.
Apesar de alta prevalência e evolução silenciosa da
doença renal crônica, temos também boas notícias:
exames seguros e baratos estão amplamente
disponíveis no Brasil, inclusive na rede pública de
saúde. O exame simples de urina e a dosagem da
creatinina no sangue podem diagnosticar a doença
antes mesmo do aparecimento de sinais e sintomas.
A ampla disponibilidade desses exames – que é, de
fato, uma boa notícia – não é novidade. Esses
exames existem há décadas. Falta, ainda,
informação. Como comparação curiosa, muitos
pacientes sabem seus valores de glicose ou
colesterol. Entretanto, o exame de creatinina ainda
é desconhecido da população. Tamanho
desconhecimento, infelizmente, não é
acompanhado de pouca relevância; creatinina alta
tende a ser mais nociva do que colesterol alto.
A creatinina – que não deve ser confundida com seu
parônimo, o suplemento alimentar – é uma
substância presente no sangue de todo indivíduo.
Um produto do metabolismo muscular que serve
como marcador substituto para avaliar a função
renal: caso esteja alto, ou em elevação, o
diagnóstico provável é a doença renal. Longe de ser
ideal, sua importância reside na sua capacidade
diagnóstica, simplicidade de interpretação e,
principalmente, acessibilidade. Não à toa, o Dia
Mundial do Rim adotou o lema Saúde dos Rins e
Exame
de Creatinina para Todos. A popularização
desse exame é fundamental para aumentarmos as
chances de diagnóstico precoce e tratamento dos
pacientes com doenças renais. Pacientes com
fatores de risco devem realizar o rastreamento para
doença renal crônica; indivíduos com histórico
familiar, idade superior a 60 anos, tabagistas e
pessoas com hipertensão arterial, diabetes,
obesidade e doença cardiovascular são aqueles que
apresentam maiores riscos.
A prevenção e o diagnóstico precoce ainda são as
melhores alternativas ante os desfechos da doença
renal crônica.
Mais de 150 mil pessoas estão em
tratamento dialítico no Brasil – 80% no Sistema
Único de Saúde (SUS). Apesar das declarações de
apoio ao SUS – vide #VivaoSUS e outras palavras de
ordem –, a terapia renal substitutiva sofre há alguns
anos com subfinanciamento e descaso de gestores
públicos, naquilo que pode ser considerado uma
silenciosa e grave crise humanitária. Silenciosa
porque não parece que estamos sendo ouvidos.
Grave porque há risco real de desassistência para
milhares de pacientes, muitos deles internados pelo
SUS, aguardando vagas em clínicas de diálise, que
beiram a insolvência diante de aumentos sucessivos
dos custos, inflação de produtos e reajustes
insuficientes.
Afinal, estamos cuidando dos vulneráveis?
Especialmente, a imensa maioria das brasileiras e
brasileiros que não tem acesso à saúde
suplementar? A universalidade, um dos princípios
fundamentais do SUS, garante o acesso aos serviços
de saúde em todos os níveis de assistência. Sem
qualquer tipo de discriminação. A integralidade de
assistência, entendida como conjunto contínuo das
ações e serviços preventivos e curativos, exigidos
em todos os níveis de complexidade do sistema, é
outro princípio fundamental. Ambos não têm sido
respeitados… e não é de hoje.
A implementação de uma linha de cuidado integral
ao paciente com doença renal crônica é necessária e
urgente. Precisamos popularizar as ferramentas de
diagnóstico disponíveis. Devemos conscientizar as
pessoas das doenças renais e seus fatores de risco.
Por fim, necessitamos rediscutir o financiamento do
SUS para a terapia renal substitutiva, sob risco de
agravamento de uma crise humanitária que afeta
brasileiras e brasileiros altamente vulneráveis. Não
podemos esperar. #VivaoSUS não pode ser apenas
uma hashtag. No Dia Mundial do Rim e sempre,
vamos cuidar dos nossos vulneráveis.

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MÉDICO NEFROLOGISTA, É PRESIDENTE DA
SOCIEDADE BRASILEIRA DE NEFROLOGIA