Wolbachia contra a dengue: inovação precisa de pausa responsável e auditoria independente

gdsfggger

A cada verão, o Brasil revive a angústia da dengue. Hospitais lotam, municípios decretam emergência e novos milhões são anunciados para combater o Aedes aegypti. Entre as apostas, o uso de mosquitos infectados por Wolbachia ganhou protagonismo. A ideia é elegante. Ao carregar a bactéria, o mosquito teria menor capacidade de transmitir vírus. Em alguns lugares, os resultados são promissores. Mas promessa não dispensa prova, e muito menos transparência, quando se trata de investimentos públicos de grande porte.
O ponto não é rejeitar a inovação, e sim governá-la bem. Antes de expandir o programa, é preciso demonstrar, nas áreas já cobertas, que a estratégia é segura, sustentável no longo prazo e faz bom uso do dinheiro público. Isso só se comprova com dados compartilhados, metodologia clara e verificação externa, em diálogo aberto com a sociedade.
Metas claras e dados abertos
Esse compromisso começa por metas objetivas e mensuráveis, acompanhadas de dados abertos por cidade, bairro e por semana. A população precisa enxergar, com série histórica e recorte territorial, casos notificados, internações e óbitos; além de parâmetros operacionais que indiquem a execução, tais como m percentual de mosquitos com Wolbachia no território, cobertura por quarteirão, continuidade do monitoramento.
A avaliação deve comparar resultados com áreas próximas e semelhantes sem intervenção, usando critérios transparentes para reduzir vieses. Sem definição explícita de sucesso e sem auditoria independente, ficamos reféns de comunicados dos próprios executores e de narrativas institucionais, em vez de evidências verificáveis.
Quanto custa evitar um caso de dengue?
Também é indispensável responder à pergunta que orienta qualquer política pública. Quanto custa evitar um caso de dengue com Wolbachia? Como esse custo se compara a alternativas já conhecidas e aplicadas de saneamento básico, limpeza urbana, vigilância e eliminação de criadouros, aplicação criteriosa de inseticidas, telas e barreiras físicas, armadilhas, educação comunitária e vacinação?
Saúde pública é feita de escolhas. Cada real colocado aqui deixa de financiar outra frente. A expansão só se justifica se a relação custo-efetividade for superior à das alternativas no contexto local, com cálculos replicáveis, disponíveis para escrutínio público e revisão por pares.
Sustentabilidade e plano de contingência
A sustentabilidade operacional completa o quadro. Manter populações de mosquitos com a bactéria não é evento pontual, mas sim exige equipe treinada, logística, insumos e monitoramento contínuo. Existe um plano de transferência de tecnologia e integração plena ao SUS, para que o conhecimento não fique cativo de contratos, patentes e doações?
O que acontece se o financiamento não tiver continuidade ou se metas intermediárias não forem atingidas? Quais protocolos orientam correções de rota e eventual descontinuidade responsável? Inovação sem plano de contingência, inclusive para suspensão ou encerramento do programa, não deve ser implementada ou continuada.
Inovação que soma
O uso da Wolbachia precisa somar, não distrair. Educação, saneamento, coleta de lixo, manejo de água parada, proteção de caixas-d’água, telas em casas e escolas, vigilância ativa e atendimento rápido seguem sendo os pilares do controle de mosquitos e da prevenção de dengue, zika e chikungunya.
Estratégias maduras integram soluções, em vez de substituí-las. Medem resultados de forma transparente, combinam indicadores epidemiológicos e operacionais, e ajustam o rumo quando a evidência manda, mesmo que isso signifique reduzir ou redirecionar programas em que já houve investimento político e financeiro.
Contrato público com a sociedade
Para transformar promessa em política pública à altura do desafio, o governo precisa firmar um contrato público com a sociedade. Isso inclui estabelecer metas trimestrais por cidade, cronograma factível, orçamento detalhado e publicação de dados abertos, com auditoria por universidades, institutos de pesquisa, órgãos de controle e conselhos de saúde.
Se as metas forem cumpridas e os resultados mostrarem segurança, sustentabilidade e melhor custo-efetividade do que as alternativas, apoiemos a expansão. Se não, redirecionemos recursos para o que entrega mais saúde por cada real investido, com prioridade para ações estruturantes e de longo prazo.
O Brasil conhece a força da ciência quando ela caminha de mãos dadas com transparência e prestação de contas. Inovação salva vidas quando é guiada por evidência, e é isso que a população espera e merece na luta contra a dengue.
artigo de Osvaldo Marinotti
fonte :
https://www.linkedin.com/pulse/wolbachia-contra-dengue-expans%25C3%25A3o-exige-metas-p%25C3%25BAblicas-marinotti-3k0wf

Compartilhe