Da pequena Alto Paraíso, cidade do Noroeste do Paraná, até Beaconsfield, uma das maiores metrópoles da Austrália, são mais de 24 horas dentro do avião e 13,4 mil quilômetros de distância. Esse foi o caminho que o jovem Luiz Fernando Souza de Andrade, com 15 anos à época, percorreu em 2024 graças ao programa Ganhando o Mundo, da Secretaria de Estado da Educação (Seed-PR).
A conquista de poder cursar um semestre letivo em um país do outro lado do globo se soma agora à outra tão importante quanto: a aprovação não em um, mas em dois vestibulares para medicina em universidades públicas, um dos cursos mais disputados no País. Hoje com 17 anos, Luiz passou em primeiro lugar nos cursos de medicina da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) e da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).
Pela Unioeste, Luiz foi o primeiro colocado no programa Aprova Mais Universidades, desenvolvido em parceria entre a Seed-PR e a Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Seti). Pela UFMS, o paranaense foi o primeiro colocado no processo seletivo seriado, que avalia o aluno ao longo dos três anos do ensino médio.
“Prestei vestibular para UFPR, UEL, Unicentro, Unioeste, UFMS e também fiz o Enem. Meu foco sempre foi entrar na universidade pública, mas não esperava passar direto agora, então foi uma surpresa muito grande”, afirma Luiz, que finalizou o 3º ano do ensino médio em 2025 e já está com a matrícula garantida no ensino superior.
O desejo pela área médica vem desde criança. Por volta dos cinco anos, ao quebrar a clavícula, teve de ser transferido para um hospital. Foi o primeiro contato do qual tem memória, uma vez que, como morava em cidade pequena, conhecia apenas a unidade de saúde, de atendimento menos complexo. “Lembro das pessoas que me atenderam, do médico. Acho que foi ali que surgiu essa vontade e, desde então, sempre falei que seria médico e que me esforçaria para isso”, recorda. “Nunca foi uma opção desistir.”
O caminho para se chegar a esse ponto, como é de se esperar, foi de muito estudo. Luiz conta que, logo após voltar do intercâmbio, em julho de 2024, acelerou ainda mais o ritmo para buscar a realização do sonho. “Eu frequentava o ensino médio pela manhã e à tarde ficava estudando por conta própria, cerca de quatro horas por dia. À noite, fazia cursinho das 19h às 22h”, lembra, sobre conciliar as aulas no Colégio Estadual Vila Alta, em Alto Paraíso, com o curso pré-vestibular.
Ele chegou a ser aprovado em 5° lugar para cursar Engenharia Civil na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), ainda quando estava no 2° ano do Ensino Médio, com a nota do Enem de 2023. Resultados que fizeram com que Luiz conseguisse uma bolsa de estudos em Umuarama, em uma distância muito inferior à Austrália, de apenas 66 quilômetros de sua cidade natal. Na Capital da Amizade, dividia a rotina entre o curso em período integral, já com foco no vestibular de Medicina, e à noite no 3º ano do ensino médio no Colégio Estadual Pedro II.
“Eu acordava por volta das 6h30, com seis aulas pela manhã, das 7h15 ao meio-dia. Tinha duas horas de almoço, mas fazia tudo rápido para sobrar mais tempo para estudar e, por volta das 13h15, já retornava para o cursinho. Estudava nas cabines individuais de maneira ativa, com resolução de exercícios e aulas específicas, principalmente de biologia e química, até por volta das 19h. Depois, ia direto para o colégio à noite”, comenta, sobre a rotina intensa de estudos. “Eu chegava em casa todos os dias por volta das 23h.”
E se engana quem pensa que o final de semana era só moleza. “No sábado tinha aula pela manhã e, à tarde, fazia simulados do Enem, de vestibulares e provas antigas. No domingo descansava um pouco, mas reservava de duas a três horas para fazer a correção detalhada dos simulados, analisando erros, acertos e pontos de melhoria”, acrescenta.
Com a aprovação por nota no ensino médio já no meio do ano letivo, Luiz aproveitava os momentos livres para focar nas atividades do cursinho. Fazia, em média, 70 exercícios por dia, o que, segundo ele, “não focado apenas na quantidade, mas na qualidade”. Esforço que foi recompensado.
“Sempre digo só não passa quem desiste, e eu não estava disposto a desistir. Se não fosse agora, seria depois. As vagas existem e precisam ser preenchidas. Eu não esperava e agora vou preencher uma vaga, realizando meu sonho”, celebra, ao passo que destaca a trajetória até chegar a aprovação. “Digo que não existe uma dica ou segredo. É sentar na cadeira e estudar com foco. Saía com os amigos às vezes, mas abdiquei de muitos momentos. Ninguém está bem todos os dias, mas é preciso manter constância.”
FUTURO – Luiz escolheu a Unioeste e, em breve, terá novo CEP residencial. Ele vai percorrer agora 340 quilômetros para estudar no campus de Francisco Beltrão, no Sudoeste do Paraná. A matrícula já está feita.
“As aulas começam no dia 16 de março. Já estou em contato com veteranos e, na próxima semana, vou conhecer o campus e ver minha nova moradia. Também já conheci colegas aprovados que serão da minha turma”, explica.
O jovem conquistou a vaga na Unioeste por meio do Aprova Mais Universidades. Desenvolvido em parceria entre a Seed-PR e a Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Seti), com o programa os estudantes das escolas públicas concorrem a uma vaga nas universidades estaduais com a nota da Prova Paraná Mais, avaliação realizada em novembro do ano passado.
Neste ano, 13,4 mil estudantes realizaram 24,2 mil inscrições (cada estudante pode se candidatar a até dois cursos). Foram 3.757 vagas em 1,3 mil cursos de nível superior das sete universidades estaduais —UEL, UEM, UEPG, UENP, Unioeste, Unicentro e Unespar.
ORGULHO – A felicidade pela aprovação em um curso tão difícil quanto Medicina não é algo individual, mas sim coletivo. “Foi um misto de emoções e sentimentos, a alegria foi contagiante, pois não há nada mais satisfatório para os pais do que ver um filho realizando seu sonho”, conta Sirley Souza de Andrade, 41 anos, professora e mãe de Luiz.
“Enfrentamos muita coisa durante esse processo, como distância, ansiedade e insegurança durante o período de incerteza até a aprovação. Hoje ela representa a realização de um sonho. As expectativas são de que ele se torne um profissional humanizado e que faça a diferença como ser humano para com a comunidade”, complementa o pai, Ademir Caetano de Andrade, 50 anos, trabalhador rural.
“Luiz sempre foi um estudante muito dedicado, esforçado, focado e estudioso. Não poupava energia para alcançar seu objetivo de estudar medicina. Participou do Ganhando o Mundo e sempre se fez presente sendo destaque em seu aprendizado”, recorda a chefe do Núcleo Regional de Educação de Umuarama, Gilmara Zanata.
“Assim como o Luiz, cada estudante que é aprovado em um curso como Medicina, Engenharia ou Direito demonstra para a comunidade que a educação que temos é de qualidade, que transforma a vida dos nossos estudantes e que, por meio do ensino público, muitos sonhos podem ser realizados”, acrescenta. “É inspiração para outros tantos e demonstra a seriedade e importância da Prova Paraná Mais.”
A meta, agora, é curtir a universidade e tudo que ela tem para oferecer. “Ainda não penso muito em especialidade e só vou decidir quando tiver contato com as áreas. Pretendo fazer residência e, se não passar de primeira, continuarei tentando”, projeta o estudante. “Vou me especializar e atuar também na saúde pública. Quero viver a faculdade, me dedicar, continuar dando o meu melhor, não só por mim, mas pela profissão e pelas pessoas que vou atender.”
“Talvez haja um pouco de insegurança por ser tudo novo: cidade, moradia, universidade, mas estou muito feliz. É como se a ficha não tivesse caído. Encaro como uma nova fase da minha vida. Estou indo de peito aberto para tudo que a universidade e a cidade puderem me oferecer”, ressalta.
GANHANDO O MUNDO – Maior programa de intercâmbio estudantil do Brasil, o Ganhando o Mundo teve sua primeira edição em 2022 e, desde então, já levou 2.540 estudantes da rede pública para diversos países de língua inglesa, como Reino Unido, Austrália, Canadá, Nova Zelândia e Estados Unidos.
Em 2026, está em andamento a maior edição do programa, com duas mil vagas. Desde o início deste ano, 675 estudantes já embarcaram para intercâmbios educacionais na Irlanda, Reino Unido, Nova Zelândia e Canadá. Os embarques seguem ao longo do ano para esses países e também para a Austrália, conforme o calendário de cada local. Ao final desta edição, 4.540 estudantes terão ganhado o mundo.
“Desenvolvi meu inglês e hoje sou fluente. Tive experiências na escola e com a minha host family [família anfitriã], que era muito agradável. Fiz muitas atividades extracurriculares, acampei, conheci praias, fiz trilhas. Tudo foi muito importante para o meu desenvolvimento pessoal, em maturidade, e também para a criação de repertório sociocultural. Foi uma experiência completa”, salienta Luiz.
Segundo o jovem, o maior aprendizado no período de intercâmbio foi aprender a lidar com adversidades. “Independentemente da situação, aprendi que havia como contornar. Tudo é muito diferente e difícil quando você ainda não é fluente na língua e está em um lugar onde ninguém te conhece. Você não é nativo. Aprender a lidar com os problemas, independente do contexto, foi muito importante”, explica.
Atualmente, Luiz mantém contato com os amigos que fez na Austrália, com a família que o recebeu por lá e também com os professores. Todos já estão sabendo da aprovação no curso de Medicina. “Meus pais não tinham condições de pagar escola particular ou ensino caro. Eu morava no Interior, então sempre me esforcei muito. Desde o ensino fundamental fui aluno destaque. Tinha claro para mim que precisava me dedicar, me esforçar para alcançar a aprovação em Medicina em uma universidade pública”, declara.
EXEMPLO – Após a participação de Luiz no Ganhando o Mundo, os dois colégios onde estudou, em Alto Paraíso e Umuarama, viram crescer o número de estudantes selecionados para o intercâmbio proporcionado pelo Estado com todas as despesas pagas.
São cinco alunos que vão ganhar o mundo em 2026, sendo que dois já embarcaram rumo à Nova Zelândia. “Acho que incentivei muita gente. Depois da minha viagem, a escola teve outros estudantes no Ganhando o Mundo. Consegui mostrar que, mesmo vindo de uma cidade pequena, é possível. Existe um mundo lá fora que pode ser conhecido e explorado, e que as pessoas podem adquirir conhecimento e ter essa experiência”, finaliza.