A decisão do governador Ratinho Junior de desistir da corrida presidencial vai além de um simples recuo estratégico. Na prática, reposiciona o jogo político no Paraná e antecipa uma disputa que já começou nos bastidores, marcada por interesses cruzados e cada vez menos conectada à ideologia.
Ao afirmar nas entrevistas durante a semana que pretende proteger o estado das “brigas de Brasília”, Ratinho envia um recado direto aos adversários, ainda que sem citá-los nominalmente. A referência atinge nomes como o senador Sergio Moro (PL) e o deputado estadual Requião Filho, apoiado pelo PT do presidente Lula da Silva. O governador busca se blindar do desgaste nacional e, ao mesmo tempo, arregaçar as mangas e trabalhar 24 horas ao lado do futuro escolhido que deve ser revelado até a segunda-feira (30) e que já tem até um jantar marcado no Madalosso em Santa Felicidade para um “REGABOFE DA REVELAÇÃO”!
Mas é nos bastidores que a realidade se impõe. A proximidade do fechamento da janela partidária escancarou um movimento intenso de trocas e rearranjos. A debandada de ao menos 49 prefeitos que estavam no PL, ou seja 93 %, devem migrar para PSD, Republicanos e PP. Uma debandada que evidencia que o jogo político está em plena ebulição. Ainda assim, parte dessas lideranças demonstra fidelidade ao grupo que governa o estado, diferentemente de figuras que mudam de posição conforme o vento político, como Paulo Martins e Deltan Dallagnol do partido NOVO, frequentemente citados como exemplos dessa volatilidade.
A chamada “temporada de traíras” está oficialmente aberta. E a carapuça serve para muitos. Após anos orbitando o poder, usufruindo de espaço político e estrutura, não são poucos os que agora ensaiam novos discursos e novos palanques, guiados por promessas, conveniências e oportunidades eleitorais. A política, nesse contexto, se distancia de qualquer compromisso programático e se aproxima cada vez mais de um balcão de negócios.
Ideologia virou detalhe. O que pesa, de fato, é o tempo de televisão, o acesso ao fundo eleitoral e a capacidade de viabilizar campanhas competitivas. Partidos deixam de ser referência política e passam a funcionar como ferramentas estratégicas, onde o objetivo principal é garantir espaço e sobrevivência.
Com a saída da disputa presidencial, Ratinho tenta reorganizar sua base e influenciar diretamente a sucessão estadual, mas encontra um cenário instável, onde a lealdade é cada vez mais relativa e frequentemente condicionada a vantagens imediatas. O resultado é uma eleição que começa antes do tempo e sob uma lógica pragmática, onde alianças são frágeis e princípios, muitas vezes, secundários.
No fim, a dúvida que permanece é simples: “quem será o representante de Ratinho Jr. e que possa chegar ao segundo turno em outubro para enfrentar a trairagem que tomou conta de alguns que entraram na política por oportunismo e já aderiram de vez ao jogo das conveniências”.