Cotado até pouco tempo atrás como possível indicado do governador Ratinho Junior (PSD) para a disputa ao governo do Paraná, o secretário das Cidades, Guto Silva (PSD), que aniversaria no dia 11 de fevereiro, passou a ser tratado nos bastidores políticos como um nome contaminado pelas denúncias que vieram à tona nos últimos dias. O efeito foi imediato deste inferno astral: deputados estaduais, federais e prefeitos que antes circulavam ao seu redor, protagonizando fotos, vídeos e postagens em redes sociais, desapareceram da cena em fotos com Guto, evitando qualquer associação que possa gerar desgaste político. Afinal, o ano é de eleições e qualquer deslize pode colocar tudo por água a baixo.
O isolamento repentino é reflexo direto da gravidade dos áudios vazados e divulgados pelo Diário de Maringá, que escancaram a existência de um sistema informal de poder dentro do governo do Paraná e da Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar). As gravações apontam para hierarquia paralela, esvaziamento de cargos oficiais, possíveis práticas de rachadinha e uso político da máquina pública fora dos canais legais. Os áudios sugeriam que até mesmo a presidência da Sanepar estaria esvaziada de autoridade. Em um dos trechos, o interlocutor afirma: “Nem o Cláudio Stabile é teu chefe”, em referência direta ao presidente da estatal. Em seguida, completa que “Cláudio e a Priscila ainda vão levar uma invertida”, expressão que, no jargão político, indica enquadramento ou desautorização.
“MEU CHEFE NÃO É NEM O GOVERNADOR, MEU CHEFE É O GUTO”!
Nas gravações, atribuídas a um assessor ligado ao secretário, de nome Jaime Antônio de Camargo Ferreira, o interlocutor afirma de forma explícita que o comando real do governo não estaria nas mãos do governador, mas concentrado em Guto Silva. “Meu chefe não é nem o governador, meu chefe é o Guto”, diz o áudio, em uma declaração que sintetiza o grau de distorção institucional revelado pelo material.
A fala surge em meio a pedidos de favores políticos, liberações administrativas e encaminhamentos que o próprio interlocutor classifica como “coisa errada”. Segundo o relato, nada avançaria sem autorização direta do secretário, indicando que decisões sensíveis do Estado estariam submetidas a um filtro político pessoal, e não às normas legais ou administrativas.
Em outro áudio citam ainda problemas envolvendo assinaturas de documentos e erros administrativos atribuídos a “Bedeu”, possivelmente Wellington Bedeu, ex-gestor da Sanepar multado pelo Tribunal de Contas do Paraná por contratos irregulares. A necessidade de “corrigir” atos já assinados aponta para práticas que extrapolariam o rito legal.
ESTADO DENTRO DO ESTADO
Os áudios sugerem que a estrutura formal do governo e da Sanepar teria sido substituída, na prática, por um núcleo de poder informal de Guto, capaz de se sobrepor a presidentes de estatais, diretores e gestores técnicos.
Em um dos trechos mais graves, o interlocutor afirma que nem mesmo o presidente da Sanepar seria autoridade efetiva. A expressão de que dirigentes “ainda vão levar uma invertida” indica não apenas desautorização, mas um ambiente de intimidação política, no qual cargos máximos da estatal estariam fragilizados diante de interesses externos à governança oficial.
O conteúdo também aponta para a tentativa de conter ou corrigir atos administrativos já consumados, incluindo assinaturas consideradas equivocadas, o que levanta suspeitas de manipulação posterior de decisões públicas para atender conveniências políticas.
CONTRATOS, FAVORES E SUSPEITA DE RACHADINHA
O trecho mais sensível das gravações envolve pedidos de “ajuda” para viabilizar negócios com prefeituras, especialmente nas áreas de sistemas de informática e soluções de mídia. Segundo o áudio, a liberação desses contratos não dependeria de critérios técnicos, jurídicos ou de licitação regular, mas de acordos políticos prévios.
O interlocutor afirma ter capacidade de indicar municípios e abrir portas para contratos, desde que houvesse autorização política superior. A frase “se autorizar, eu ligo” expõe uma lógica típica de tráfico de influência, na qual o Estado é tratado como instrumento para distribuição de favores.
Esse modus operandi é compatível com esquemas de rachadinha ampliada, nos quais a máquina pública serve para alimentar redes políticas, recompensar aliados e manter controle sobre cargos e contratos.
PROTEÇÃO POLÍTICA E REPETIÇÃO DE VELHAS PRÁTICAS
Os áudios também revelam um ambiente de proteção política a servidores e gestores, mesmo após envolvimento em irregularidades. A narrativa dialoga diretamente com o histórico da Operação Ductos, que investigou corrupção em contratos da Sanepar e resultou em prisões, afastamentos e multas aplicadas pelo Tribunal de Contas na época do governo Beto Richa de 2014 a 2018.Apesar das operações policiais e sanções, o conteúdo das gravações sugere que a lógica de decisões fora dos canais formais não foi desmantelada, apenas adaptada, mantendo práticas de bastidores, interferência política e blindagem de aliados.Nesse contexto, a citação de gerentes e técnicos da estatal reforça a percepção de que problemas administrativos continuariam sendo tratados por intervenção política direta, e não pelos mecanismos legais de controle, compliance e responsabilização.
CRISE INSTITUCIONAL E CUSTO POLÍTICO DO GOVERNADOR
O governador Ratinho Jr. não pode ficar neutro nessa situação ainda mais que pode ser o candidato da direita a presidente do Brasil a partir de abril e, além de tudo ficar amarrado a fatos que venham a prejudicar os 7 anos de mandato brilhante e com vários investimentos em todo o estado do Paraná.