Uma recente entrevista concedida por Sergio Moro a uma emissora de televisão ilustra bem o momento de sua pré-campanha. Esperava-se que o ex-juiz aproveitasse o espaço para apresentar suas prioridades para o Paraná: quais seriam seus projetos para a saúde, infraestrutura, segurança, desenvolvimento regional ou geração de empregos.
Mas o protagonista da entrevista acabou sendo outro.
Ao longo da conversa, Moro citou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nada menos que 21 vezes. Vinte e uma vezes.
Para quem pretende disputar o Governo do Paraná, o número chama atenção. Em vez de ocupar boa parte da entrevista explicando como pretende administrar um Estado com quase 12 milhões de habitantes, o foco permaneceu na política nacional e nas críticas ao presidente da República.
A impressão que fica é a de uma espécie de encasquetação política. Lula continua sendo o principal adversário no discurso de Moro, como se a campanha ao Senado de 2022 ainda estivesse em andamento. Entretanto, a eleição para governador é outra disputa, com desafios diferentes e cobranças muito mais voltadas à realidade dos paranaenses.
O eleitor do interior quer saber como serão recuperadas as rodovias estaduais, como melhorar o atendimento nos hospitais regionais, quais incentivos chegarão ao agronegócio, à indústria e ao comércio, além das políticas para educação, segurança e geração de empregos. Em outras palavras, espera ouvir propostas para o Paraná, e não apenas críticas a Brasília.
Essa mudança de foco pode ser decisiva. O candidato que deseja governar o Estado precisa demonstrar conhecimento das diferentes regiões, compreender suas vocações econômicas e conhecer a cultura de seu povo. Episódios como a declaração envolvendo Paranaguá, que gerou críticas por revelar desconhecimento sobre a identidade dos moradores do Litoral, mostram que ainda há espaço para uma maior aproximação com a realidade paranaense.
A crítica ao governo federal faz parte do debate democrático e é legítima. Mas, para quem almeja comandar o Palácio Iguaçu, ela dificilmente será suficiente. Em algum momento, o discurso precisa deixar de ser apenas contra alguém e passar a ser a favor de um projeto de Estado.
A fissura já está enjoativa e perigosa…