Nem o recurso liberado escapa da política: quem paga é a população, que sofre com dificuldades na execução do que já foi autorizado._
A tentativa de carimbar Sérgio Moro como “último colocado” na liberação de emendas parlamentares não é informação — é narrativa.
Em Brasília, a regra é clara: quem se posiciona contra o governo Luiz Inácio Lula da Silva simplesmente não entra na fila dos recursos. O dinheiro público, que deveria atender a população, passa a ser distribuído conforme o grau de alinhamento político.
No caso de Moro, não há surpresa. Ao manter uma postura firme de oposição e rejeitar práticas pouco transparentes no uso do orçamento, o senador acaba naturalmente isolado desse sistema. Não por falta de atuação, mas por não se submeter à lógica vigente.
Mas há um ponto ainda mais grave — e pouco discutido. Mesmo as chamadas emendas impositivas, que são um direito constitucional dos parlamentares no âmbito federal, enfrentam obstáculos na prática. Criam-se dificuldades na execução, atrasos e barreiras burocráticas que fazem com que, na prática, até recursos já liberados sofram entraves para serem efetivamente executados.
E isso revela o verdadeiro problema: o prejuízo não é do parlamentar — é da população, que deixa de receber investimentos por conta de disputas políticas e do uso do poder como instrumento de pressão.
No Paraná, o cenário segue a mesma lógica, com um agravante importante: não há emendas impositivas na Assembleia Legislativa. Ou seja, a liberação de recursos depende ainda mais de decisões políticas do Executivo. Na prática, isso amplia o poder de controle e abre espaço para retaliações mais diretas.
Relatos de bastidores apontam que parlamentares ligados ao PL ou que declaram apoio a Moro enfrentam cortes de espaços, retirada de cargos e entraves sistemáticos não só na liberação, mas também na execução dos recursos — mesmo quando já estão formalmente disponíveis.
Ou seja: critica-se em nível federal aquilo que se replica — e, em alguns aspectos, se intensifica — no âmbito estadual.
No fim, o chamado “ranking de emendas” não mede eficiência, nem capacidade de trabalho. Mede alinhamento político.
E deixa uma constatação incômoda: quando até o recurso liberado encontra barreiras para chegar à ponta, quem perde não é o político — é o cidadão.