OS SEM TERRA CONTRA O INCRA, OU MORRO E NÃO VEJO TUDO

SEM TERRA

Há algum tempo, os proprietários da Fazenda Santa Maria, situada em Santa Teresinha de Itaipu, conseguiram ordem judicial para reintegração de posse da área que havia sido invadida pelo MST. A fazenda, de 1.750 hectares, estava ocupada por um número incerto de pessoas do MST, e havia sido invadida no dia 18 de março de 2016. Dois meses depois, a Polícia Militar enviou policiais do estado todo, cerca de 500 soldados, e de forma não muito pacífica os ocupantes foram retirados.

  1. Perto dali, a Mitacoré, uma fazenda-modelo pertencente ao Bamerindus, ou ao dono do banco José Eduardo de Andrade Vieira, havia sido invadida anteriormente, e sua área, de aproximadamente 400 alqueires dividida em aproximadamente 100 famílias. Deu-se a essa ocupação o nome de Antonio Tavares. Na frente da BR-277, ficou uma pequena sobra de 5 alqueires, uma espécie de área comum das 100 famílias, denominada Sebastião Camargo.
  2. Os despejados da Santa Maria, 83 famílias, não tendo para onde ir, arrumaram umas lonas e se instalaram nesta pequena reserva de 5 alqueires, na frente das áreas dos antigos sem terra, agora com áreas tituladas, felizes proprietários de um patrimônio superior a Um Milhão de Reais, cada um deles.
  3. Aí a coisa fica estranha. Essa sobra da Mitacoré é de propriedade do INCRA. Não está bem confirmado, mas parece que os agora proprietários, antigos sem terra, começaram a chiar: “pô, depois de lutar tanto para subir na vida, agora temos que conviver com esses pobres…”, ou “se invadirem minha terra eu meto fogo…”, até o dramático “será que esses caras não sabem que existe o direito de propriedade no Brasil?
  4. O INCRA, que havia se comprometido, quando da expulsão dessas famílias da Fazenda Santa Maria, a arrumar um lugar para alojá-los decentemente, também não gostou muito: “com tanta terra pra invadir, têm que invadir logo a “nossa”?…”, disse o Superintendente.
  5. O INCRA, não se sabe se por pressão dos agora proprietários que não queriam mais se misturar com gente pobre, ou se por imbecilidade mesmo, entrou com um pedido de reintegração de posse, visando a expulsar novamente os ocupantes dos “seus” 5 alqueires. Tudo estava sendo levado em banho-maria, quando este mês a justiça entornou o caldo: ordenou a saída imediata dos sem terra da reserva Camargo, que estão reclamando, alegando que a bi-expulsão é proibida pela Constituição.
  6. Não perca os próximos capítulos. Lula vai demitir o cara do INCRA? Os sem terra vão emplacar a tese da proibição da bi-expulsão? As mulheres dos agora proprietários vão retomar a amizade com as comadres pobres? O governo federal vai criar vergonha na cara e pagar à vista, no valor justo, quando quiser dar a terra que prometeu aos seus eleitores? Cada brasileiro tem direito a ganhar um patrimônio superior a um milhão de reais ou só vai ter para alguns?     

AUMENTO DO PERÍMETRO URBANO-ACABOU A POBREZA

Depois de um período de atuação jornalística mais soft, o Marcos Formighieri recuperou a velha forma e está sendo um prazer ler o seu Gazeta do Paraná. Agressivo, na sua nova/velha linha, o jornal vem trazendo matérias com denúncias contundentes.

Com a volta da pegada forte da Gazeta, o Impacto não está mais sozinho na abordagem dos temas mais polêmicos do nosso estado. É o jornalismo como deve ser: críticas duras, mas construtivas, respeito aos dois lados da verdade. Paulo Francis já ensinava nos anos 90: “jornalismo é oposição. O resto é armazém de Secos e Molhados.”

Um dos assuntos que o Marcos trouxe a semana passada é o aumento do perímetro urbano em Cascavel, que, ao mesmo tempo em que trás uma tênue esperança de barateamento de alguns imóveis, situados em rincões distantes dos locais mais urbanizados, trás também uma desvalorização em todos os imóveis atualmente integrantes do perímetro, em todas as áreas da cidade. (Tudo que tem em abundância fica mais barato, uma das primeiras regras do mercado.)

Uma matéria em especial incomodou mais que o normal.

Tem uma galera pesada chiando na cidade porque a Gazeta do Paraná quer saber a quem interessa o aumento do perímetro urbano que está sendo discutido e ajustado nos bastidores do Paço e com lideranças do Legislativo. Já se sabe que é o maior aumento já feito aqui, a expansão definitiva, o “Aumento do Fim do Mundo”. De despedida de mandato. A área urbana aumentará em “modestos” 38%.

AUMENTO DO PERÍMETRO II

A iniciativa de anexação de areais rurais ao perímetro urbano, possibilitando o seu fracionamento em pequenas unidades, dá a essas áreas, que já eram muito caras em Cascavel, uma 

super valorização. A inclusão no perímetro representa uma multiplicação imediata do valor do imóvel. Uma boa fazenda, topografia regular, destinada à exploração agrícola vale em Cascavel entre dois e três mil sacas de soja, alguma coisa entre trezentos e quatrocentos mil reais por alqueire, (24.200 m2), preços oscilantes, válidos nesta semana. Sendo possível seu loteamento, a mesma área passa a valer entre três e quatro milhões de reais.

Imaginem então o alvoroço que acontece, periodicamente, quando a prefeitura sopra em alguns ouvidos que está aberta a propostas de interessados na inclusão de áreas no perímetro urbano.

Mas porque as reclamações? Primeiro, porque a aprovação desse projeto vai derrubar os preços de todos os imóveis da cidade, e, segundo, porque para aprovar um loteamento, apenas as benfeitorias internas são pagas pelo loteador. Para ligar essa nova área às demais, já servidas por infraestrutura urbana, o rombo é do poder público. Estender redes de energia, de água e esgoto, de asfalto, é coisa cara que sai do nosso bolso. Quando habitada, a nova região precisa de escola, hospital, segurança, médico, professoras, etc…

Mesmo assim, somas e subtrações feitas, acho que a alegria de algumas famílias envolvidas justifica o estudo da matéria. Vejamos:

AUMENTO DO PERÍMETRO III

Além dos felizes proprietários, que com um pequeno investimento em molhaduras e jabaculês multiplicam o valor de seus imóveis, outros beneficiados também querem uma fatia dos lucros.

No lado do executivo, de onde parte a iniciativa do projeto, já tem muitas esposas contando às suas manicures que estão fazendo as malas para um tour pela Europa (renovar um pouco o guarda-roupa, São Paulo tá o olho da cara…), ou pegar um bronze na Côte d’Azur (Camboriú encheu demais, é muito povão…). O mercado de automóveis de luxo está agitado: muitas encomendas de SUVs. e similares. No Legislativo, mais modesto, tem muita gente que não foi procurada, já reclamaram ao Marcos: “se pensam que vão levar tudo, com o nosso voto, estão enganados…”. Algumas lideranças da Câmara, porém, estão sossegando os rebeldes: “calma, grana viva é só boato, fofoca. Mas vai vendo uns dois ou três cargos que interessem que posso dar uma referendada com o Homem…

Mesmo sendo menor que no Paço, o movimento consumista no lado de lá dá sinais de vida. Tem esposas consultando a troca do seu popular para um carrinho melhor, tem acompanhantes escolhendo piercings de ouro legítimo, que não irritam a pele, pulseiras e anéis mais condizentes: “nasci pra ser rica kkk, minha pele não aceita bijuterias…). Tem até umas gordinhas fazendo regime porque este ano “Matinhos que me aguarde…”.

As ironias desta nota, as brincadeiras, não escondem o fundo de verdade sobre o projeto, que o Marcos noticiou na Gazeta do Paraná.

Esses murmúrios saíram dos bastidores, vazaram. Sabe aquela gente mal-educada, que costuma bater na casa dos outros às seis da manhã, sem ter sido convidada, fazendo barulho com suas viaturas? Aqueles que vão atrás até das carteiras de vacinação? Pois é. Foram vistos com uns aparelhos estranhos piscando.    

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