Uma das expressões mais emblemáticas da política paranaense é o “baixa ou acaba” do ex-senador Roberto Requião (MDB). Durante a campanha ao governo do Estado, em 2002, o chavão foi adotado pelo ex-governador para mostrar braço firme contra o pedágio. A máxima eleitoral deu certo, Requião foi eleito e ficou na cadeira até 2010 e o resultado todo mundo conhece: nem baixou e nem acabou.
Agora, outra situação tem se apresentado como forte concorrente para o título de melhor estelionato eleitoral: o reajuste dos servidores públicos, ou a falta dele.
O assunto foi um dos preferidos do governador Ratinho Junior, durante sua pré-campanha. O governador do estado, à época deputado estadual, defendeu o reajuste com punhos de aço. Mobilizou deputados, fez declarações públicas, entrevistas e matérias em seu site oficial mostrando a indignação e solidariedade ao funcionalismo público.
A estratégia eleitoral que o levou ao Palácio do Iguaçu começou em maio de 2018, quando afirmou que o PSD – seu partido- iria “fechar a questão” e garantiu que mais onze deputados estavam favoráveis ao reajuste. “Os servidores do Paraná já fizeram um sacrifício, nos últimos dois anos. E, neste momento, é necessário ser revisto e discutido com os servidores. De alguma maneira, temos que amenizar essa perda”, consta na matéria divulgada em seu site.
O discurso ganhou a simpatia do público e, em especial, dos servidores. Em junho, vésperas da campanha eleitoral, liderou deputados e exigiu ao Governo do Estado o reajuste de 2,76%, contrariando as recomendações e estudos que sua adversária e governadora Cida Borghetti encaminhou à Casa de Leis. Assinaram junto com ele chefe da Casa Civil, Guto Silva e o líder do Governo, Hussein Bakri.
Ratinho Junior defendeu os interesses dos servidores como ninguém. Ao menos até o dia das eleições.
Agora ao completar 100 dias de governo, o governador mudou o discurso e jogou uma pá de cal nas esperanças dos funcionários públicos de ter um dinheirinho a mais no final do mês. Ratinho admitiu que não é possível oferecer o aumento que ele mesmo propôs, que seria “irresponsabilidade” com as finanças públicas e ainda culpou a gestão anterior por isso, embora tenha sido diversas vezes alertado sobre a impossibilidade financeira.
A desculpa não cola. Como deputado e líder de um exército dentro da Assembleia, tinha acesso a documentos e relatórios da fazenda estadual, conhecia o cofre. Como governador eleito, indicou equipe de sua confiança para esmiuçar as planilhas.
O marketing com o bolso alheio ganhou a corrida, mas ao contrário de Requião que teve oito anos para mostrar que não era possível o “baixa ou acaba”, Ratinho Junior precisou de apenas 100 dias para mudar de ideia. Que Deus proteja o Paraná, porque ainda há muitos 100 dias pela frente e muitas promessas feitas.