Ao apresentar sua candidatura ao Governo do Paraná, Requião Filho (PDT) tem colocado os governos do pai, Roberto Requião, como referência para o Estado. O candidato já afirmou que o ex-governador é seu “norte” político. Um dos principais exemplos daquele período está nos portos de Paranaguá e Antonina, comandados pelo irmão do ex-governador e tio do atual candidato, Eduardo Requião. Naquela época, os portos paranaenses eram marcados por filas quilométricas, problemas de gestão, conflitos judiciais e prejuízos para produtores, transportadores, exportadores e motoristas que precisavam utilizar a BR-277.
Para quem viveu aquele período, o problema tinha uma imagem concreta: caminhões parados durante dias na BR-277, esperando para conseguir chegar ao Porto de Paranaguá. Na safra de 2004, a fila chegou a 84 quilômetros e um estudo técnico do governo federal estimou custo adicional de cerca de US$ 8 por tonelada transportada. Os caminhões estacionados no acostamento também reduziam em até 50% a capacidade da rodovia naquele sentido. O problema atingia a logística, a produção agrícola, o turismo e a própria economia do Paraná.
O problema chegou a ser ainda maior. Em março de 2003, cerca de 6 mil caminhões ficaram parados e a fila chegou a 93 quilômetros. Em janeiro de 2004, alcançou 30 quilômetros e chegou à Serra do Mar. Em março daquele ano, durante uma greve de cinco dias no porto, a fila voltou a se aproximar de 100 quilômetros, enquanto 46 navios aguardavam para atracar. Os caminhoneiros acabaram recebendo cerca de R$ 20 milhões em indenizações pelos dias parados.
Naquele momento, os armazéns estavam sobrecarregados e o pátio de triagem lotado. Em vez de reconhecer o problema de planejamento, Eduardo Requião atribuiu parte da responsabilidade à Bunge, acusando a multinacional de prejudicar o escoamento e dizendo, em tom de deboche, que a empresa estava “procurando um rato no porão”.
Em 2006, cerca de 6 mil caminhões chegaram novamente a ocupar o pátio de triagem e mais de 100 quilômetros da BR-277. Houve relatos de motoristas que ficaram até 19 dias esperando para descarregar, com prejuízos de milhares de reais para transportadores. O problema voltou a ocorrer nos anos seguintes.
Anos depois, Roberto Requião tentou reescrever a história. Em discurso no Senado, afirmou que havia “acabado com as filas de caminhões” ao exigir agendamento para a entrada no porto. “Acabou a fila”, declarou. Mais do que isso, disse que imagens de filas exibidas pela imprensa eram “absolutamente mentirosas” e mostravam congestionamentos que já não existiam. A realidade, porém, o desmentia: em maio de 2006, uma nova fila chegou a 25 quilômetros na BR-277, e o problema continuou nos anos seguintes.
Para Requião Filho, que apresenta o pai como seu “norte”, o episódio é revelador: a versão construída pelo ex-governador sobre sua administração não corresponde aos registros de um sistema que continuava provocando filas e prejuízos justamente nos períodos de maior movimentação.
*Contas reprovadas*
As dificuldades não se limitavam às filas. A Administração dos Portos de Paranaguá e Antonina (APPA) teve as contas de 2004, 2005 e 2006 questionadas pelo Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR). Somente em 2004, o relatório do tribunal apontou 57 irregularidades na gestão de Eduardo Requião.
Em 2005, as contas foram reprovadas por nove irregularidades, sete consideradas graves. Entre os problemas estavam obras paralisadas, contrato de dragagem vencido, falhas em contratações e irregularidades na construção de um silo de 108 mil toneladas.
No ano seguinte, o TCE-PR identificou outras 18 irregularidades, incluindo problemas em licitações, prorrogação de contrato vencido e falta de contrato para a dragagem do canal de acesso.
A dragagem, aliás, foi um problema recorrente. Em 2005, o contrato para manutenção do canal de acesso estava parado havia três meses, enquanto a APPA e a empresa responsável trocavam acusações sobre o impasse. A contratada afirmava que o governo devia R$ 5 milhões em parcelas atrasadas.
O Tribunal de Contas da União (TCU) também apontou problemas na administração portuária. Em 2010, multou Eduardo Requião por irregularidades na contratação emergencial de dragagem e por restrições impostas ao embarque de soja transgênica. O TCU classificou a contratação da dragagem como resultado de “falta de planejamento e má-gestão dos recursos públicos”.
O problema não estava restrito a Paranaguá. Em histórico apresentado pela própria administração portuária, a APPA registrou que aditivos de um contrato de dragagem reduziram o volume de serviço previsto e retiraram Antonina da campanha de dragagem, embora o contrato de US$ 15,94 milhões tivesse sido pago integralmente. A própria APPA estimou em US$ 11,4 milhões o prejuízo decorrente da redução do serviço.
*Guerra contra os transgênicos*
Outro episódio emblemático foi a guerra contra os transgênicos. O governo Requião restringiu a movimentação de soja geneticamente modificada pelo Porto de Paranaguá, provocando disputas judiciais e criando custos adicionais para produtores e exportadores. Cargas foram direcionadas para outros portos, enquanto a Justiça determinava que Paranaguá permitisse a movimentação dos produtos.
A posição de Requião era marcada por forte oposição ideológica à tecnologia. Ao defender sua política, chegou a afirmar que havia impedido que Paranaguá se transformasse em “instrumento de uma quadrilha que adulterava a soja com areia e colocava urina em cima”.
Ao mesmo tempo, defendia o irmão das acusações relacionadas à administração do porto. “Eduardo desviou dinheiro público? Se comportou de forma inadequada no comando do Porto? Não”, afirmou Requião em 2009. A Justiça do Paraná discorda, e posteriormente determinou que Eduardo devolvesse R$ 26 milhões à administração portuária por irregularidades relacionadas a contratos de dragagem e equipamentos.
A política também obrigou parte da movimentação a buscar outros terminais, especialmente São Francisco do Sul, em Santa Catarina, e Santos, em São Paulo, aumentando custos para produtores e exportadores e enfraquecendo a posição do Paraná na disputa logística.
O histórico ajuda a dimensionar o que significa, na prática, Requião Filho apresentar Roberto Requião como seu “norte”: um modelo de gestão marcado por filas que chegaram a quase 100 quilômetros, caminhoneiros indenizados por dias parados, greves que paralisaram o porto, problemas de dragagem, dezenas de irregularidades apontadas pelos tribunais de contas e decisões políticas que impuseram custos à toda cadeia produtiva.