Quando temos os nossos ídolos, pessoas que admiramos, quando estes partem, e rumam para o lado de lá, para a vida depois da vida, fica uma lacuna, um espaço vago que invariavelmente com saudades é preenchido.
A dor que nós sentimos, é como se fosse com alguém próximo de nós. Para mim foi assim quando lá nos anos 90, Fred Mercury, Cazuza, Renato Russo e Eric Carr partiram sem fazer um show de despedida. Em 2017, chorei por todos os que estavam no avião da Chape, agora mais recente quando o Rodrigo Rodrigues se foi pela Covid-19, Neil Peart por um câncer no cérebro e Eddie Van Halen por um AVC, todos eles em 2020.
E agora no último final de semana, o gênio da camisa 8 se foi, o nosso Barcímio Sicupira Júnior. Fez bonito em vários clubes pelo Brasil, mas ídolo com direito a uma estátua que ainda ele não tem, foi no Atlético Paranaense, isso mesmo, naquela época o H ainda não tinha retornado.
Nos anos 70, Sicupira personificava o sonho de uma torcida rubro-negra, que era apaixonada como sempre, mas nessa década vivia de ilusão e com uma certa inveja dos triunfos do clube do Alto da Glória.
Mas quem disse que o rubro-negro está ao lado do clube somente nas alegrias. O rubro-negro sabe e comprova que o amor verdadeiro é forjado nesses momentos de pouca glória, nas alegrias é mais euforia que também pode ser passageira.
Sicupira foi esse lutador, que se entregava em campo, o craque das bicicletas. Voava como poucos seguindo o manual completo de Leônidas, Sicupira era o craque do infinito.
Como eu sei disso? Eu sei você vai falar! Nunca viu o Sicupira jogar!
Não vi mesmo! Minha estreia na arquibancada de tijolo furado da Baixada foi em 1982 ao lado do meu pai, Sicupira já tinha deixado o gramado, e também naqueles anos assistir a um jogo no Joaquim Américo era um ato inglório. Quando criança era muito menor que os meus 1m66 de agora, então imagine a luta para conseguir apenas enxergar um pouco que seja, dos mantos dos nossos onze guerrilheiros da Baixada.
Mas o nosso Sicupira é um patrimônio do futebol paranaense, ouvi muitas histórias não só de Atleticanos, mas também de saudosos Ferroviários e espantados Coxas-Branca. Pude algumas vezes, ouvir na mesma mesa que não era redonda, as suas histórias da bola, da latinha, das teclas e das telas. Sicupira era bom de bom de bola e sabia como poucos, conduzir um bom papo de boteco.
Do meio-campo para frente, Barcímio é craque eterno, um ídolo agora imortalizado pela despedida dolorosa aqui entre nós, mas imortalizado pela sua chegada ao panteão do futebol.
Se aqui estamos a chorar ao vê-lo partir, os deuses do futebol sorriem ao vê-lo voltar. O meio campo já está garantido.
No apagar das luzes de 2020, conversei com ele para trocar aquele papo direto no Futebol de Outro Planeta. Os problemas de saúde já se faziam presentes e ainda tinhas as restrições da pandemia. Tivemos um bom papo com a gentileza de sempre, era um lord, um cavalheiro, deixamos a entrevista para algum dia.
Sicupira, o ídolo eterno da camisa 8, o comentarista isento respeitado por todas as torcidas, a conversa amiga e respeitável. Qualidades e virtudes que provam de vez, que Barcímio Sicupira Júnior é de outro planeta.
Vai com Deus Craque da 8!
Álvaro Divardin é Jornalista, Athleticano e acredita que o futebol é das coisas menos importantes, a mais importante!