Ao ordenar a captura de Maduro, o Presidente dos EUA não limpa os salões de Miraflores; apenas troca o fedor de lugar e mancha o próprio tapete com a sujeira do poder.
Nicolás Maduro, Cília Flores, Diosdado Cabello e toda a cúpula do chavismo no poder estavam politicamente mortos desde as eleições de 2024. Seus cadáveres ideológicos jaziam no salão principal da América do Sul, em plena decomposição avançada, num fedor tão insuportável que espantava até os vizinhos mais tolerantes e os correligionários mais racionais. Eram o “bode na sala” continental – um problema óbvio, grotesco, que todos viam, mas que ninguém tinha coragem ou poder real para remover. Trump resolveu o problema e ressuscitou a vice e salvou o cabelo de Diosdado.
Quando entra em cena Donald Trump, o urubu-açougueiro. Em um ato que mistura covardia estratégica criminosa com ingerência ultra imperialista clássica, ele não hesitou: usou o braço longo do imperial Estado norte-americano, sem qualquer pudor (muitas vezes o Tio Sam fez isso, mas com modos dissimulados), meteu a mão na carniça, e ordenou que os corpos políticos podres de Maduro e Cília fossem arrastados para fora do recinto sul-americano e despachados para os refrigerados tribunais de Manhattan. Com isso, realizou o serviço sujo que muitos líderes da região, aliviados, secretamente desejavam. Resolveu um impasse diplomático que parecia se arrastar indefinidamente, não por cura ou diálogo, mas por transporte de lixo tóxico. Tirou o bode da sala venezuelana (ou de toda a Sudamérica), sim. Mas para onde o levou?
Direto para o centro do seu próprio palco político. Porém, a operação não é limpa. Ao ordenar que se arraste Maduro para os tribunais de Manhattan, o Presidente Trump não está apenas importando um cadáver político — está regando o solo americano com o ácido corrosivo de sua própria prática eivada de ilegalidades do seu governo em curso. O ato em si, esta ingerência de Estado, brutal e soberba, que despreza a soberania alheia e as leis internacionais do alto do cargo mais poderoso do mundo, é o miasma que agora se infiltra oficialmente no ambiente político dos EUA. Será tudo dissecado em inglês, sob os holofotes da mídia global: não apenas os crimes de Maduro, mas sobretudo o modus operandi criminoso do presidente americano — o lawfare como ferramenta do Império Estadunidense, a soberania de nações menores ameaçadas como conceito descartável, o poder judiciário transformado em extensão do poder executivo para fins de teatro político. Se a magistratura ianque tiver um pingo de vergonha, irá rechaçar as absurdas acusações contra Maduro e o devolver para as cordilheiras do Caribe Sul. Será a máxima vergonha do alaranjado criminoso. A mentira será mais descarada do aquela de Bush sobre Saddan.
Maduro é e continuará sendo um cadáver fedorento, sem dúvida. Mas o cheiro que dominará o seu julgamento será o da prepotência presidencial institucionalizada. Um espetáculo perfeito para uma eleição polarizada, mas também um registro histórico em tempo real de suas táticas, que agora ficarão protocoladas como ação oficial e criminosa do governo dos Estados Unidos.
Os líderes sul-americanos, é claro, respirarão aliviados — ainda que em sussurro. Nas suas caves, sabem que devem ter cuidado com o criminoso laranja, mas esperam o final da fase para apreciar o fim trágico do bandido presidencial. No entanto, o Napalm político resolveu uma parte incômoda do cenário político do continente do Hemisfério Sul – Maduro já não fede no Governo das Venezuela. incômodo mais evidente saiu de sua sala. No entanto, a lição que fica é perversa: a soberania continua sendo uma fantasia para os fracos, e os problemas regionais viram mera moeda de troca no cassino da política interna das grandes potências.
Mas a história é uma mestra irônica. Ao abrir as portas do Estado para cadáveres políticos alheios, Trump parece ignorar um princípio básico: o caixão é uma mercadoria de mão dupla. Não deve demorar para que um cadáver próprio, de cabelos alaranjados, gigante e putrefato — alimentado por estas mesmas táticas de ingerência, lawfare e desprezo institucional — comece a feder com força no Salão Oval, exigindo seu próprio e inevitável julgamento, talvez não muito longe dali, em uma corte de Washington D.C.
O ciclo, então, estará completo. O urubu-açougueiro, no fim, sempre circula sobre a própria carniça que ajudou a criar.
E na ferida Venezuela, o chavismo continuará no poder, agora mais fortalecido por não ter mais o cadáver fedendo nos salões de Miraflores e com reconhecimento internacional, se seus líderes tiverem um pingo de juízo.
(FONTE: LUIZ DERNIZO CARON)