Hatsuo Fukuda
Flávio Bolsonaro, baleado pelo escândalo do Banco Master, ansioso para mudar o disco, foi a Washington para uma foto com Donald Trump. De lá, veio direto a Curitiba, para o lançamento da candidatura do senador Sérgio Moro ao Palácio Iguaçu. Trata-se de uma jogada óbvia, destinada a unir os fiéis bolsonaristas, associando-se a um símbolo do lavajatismo, Sérgio Moro. Com isso, Flávio Bolsonaro reunificará o campo, aguardando que a lembrança de sua amizade com Daniel Vorcaro se perca entre os infindáveis escândalos da República.
O comício fora programado inicialmente para ocorrer no Clube Curitibano, o clube da elite curitibana, mas, um dia antes, um preocupado e sério senador Sérgio Moro foi às redes anunciar que o evento fora transferido para o Jockey Club do Paraná. Algum assessor do senador Moro deve tê-lo alertado que os sócios do mais exclusivo dos clubes paranaenses são ricos e pegaria mal barrar a entrada da patuléia nos requintados salões do Curitibano. Assim, o evento foi transferido para o Jockey Club.
Caberia a um outro assessor, mais esperto, lembrar que cavalos não votam.
A notícia levou a gargalhadas homéricas no Centro Cívico, reduto do poder paranaense. Se o eminente senador pretende transformar a eleição paranaense em uma luta de grã-finos do Clube Curitibano contra o caboclo de Jandaia do Sul, Ratinho Júnior está pronto.
Seria a reedição da eleição de 1945, dos Marmiteiros contra o Brigadeiro, com resultado previsível. Na época, os marmiteiros ganharam. Há mais marmiteiros que grã-finos no Brasil.
Na guerra, como na política, a verdade é a primeira vítima. Assim, um evento em ambiente fechado – na qual só se tinha acesso com prévia inscrição pela Internet – na Sala dos Arcos do Jockey Club, uma construção modernista dos anos 50 – onde cabem no máximo 2000 pessoas, foi proclamado ter mais de cinco mil pessoas. Qualquer que seja o número, não deixa de ser um feito, numa fria noite curitibana. Os espectadores, vestidos com as tradicionais camisetas amarelas ou verde-amarelas, comportavam-se como se estivessem em um show de rock, todos armados com celulares, transmitindo em suas redes sociais.
Este fenômeno tecnológico, na qual os bolsonaristas são mestres, será, afinal, a grande arma de uma Armata destituída dos instrumentos tradicionais das eleições no Brasil: deputados, vereadores, cabos eleitorais. Resta ver se a eleição terá a amplitude que teve em 2022. Nesta eleição, no Paraná, Jair Bolsonaro teve 62% contra Lula 37%. Caso Flávio Bolsonaro repita a performance do pai, e Moro o acompanhe, Moro será o próximo Governador. Destes números vem a confiança de Moro.
Em outra raia, dois dias antes, Ratinho Júnior botou o bloco na rua em grande estilo, com um comício em Cascavel reunindo mais de três mil pessoas. Cascavel, no Oeste do Paraná, reduto do poderoso agronegócio paranaense, uma cidade conservadoríssima, foi o palco escolhido por Ratinho Júnior.
O caboclo de Jandaia do Sul reuniu todas os prefeitos, vereadores e lideranças econômicas da região em uma enorme demonstração de força política, ao som de canções de Chitãozinho e Xororó (Evidências) e Matogrosso e Matias (Boate Azul). Aliás, a Boate Azul que inspirou a canção era de Apucarana, vizinha de Jandaia do Sul. É o que a turma gosta, e é o que ele gosta.
Presentes, o candidato a governador, Sandro Alex, os candidatos ao Senado e as principais lideranças políticas do Estado. Foi um enorme evento – basicamente de cabos eleitorais -, mostrando o peso da máquina governamental e uma amostra do que acontecerá quando a eleição for oficialmente deslanchada. A capilaridade política desta máquina não pode ser subestimada. Ratinho Júnior tem suas razões para se sentir confiante.
Ele tem motivos psicológicos para tanto. É filho de um self made man, Ratinho Pai, que construiu um império de comunicação saindo da pequena Jandaia do Sul, trabalhando inicialmente como repórter de notícias policiais escandalosas até assumir o controle da rede de rádio e televisão onde havia trabalhado. Esta autoconfiança foi herdada pelo filho. E, desafiando todos os prognósticos dos meios políticos, que o viam apenas como um filhinho de papai, um mauricinho (piá de prédio, na gíria curitibana) vindo de Jandaia do Sul, sem autonomia ou capacidade próprias, Júnior, após dois mandatos de governador, mostrou a que veio. É popularíssimo no Paraná, graças a um governo bem avaliado.
Mas a autoconfiança de Ratinho Jr, para seus aliados, beira a insanidade. Eles temem uma hecatombe nas eleições parlamentares – o que realmente importa para os deputados. Todos se lembram da onda bolsonarista de 2018, que derrubou muitos deles em seus redutos eleitorais. Alguns estão costeando o alambrado, como diria Leonel Brizola. Mas debandar para onde? Na política, como no Judiciário, é necessário confiança nas regras. Mas Moro, o favorito nas pesquisas, não é conhecido por respeitar regras, sejam jurídicas, sejam políticas – as regras não escritas da lealdade entre parceiros.
O governador aposta que conseguirá reproduzir o ocorrido nas eleições para a prefeitura de Curitiba, onde o radicalismo bolsonarista quase ganhou a eleição, com uma candidata completamente desconhecida, que ao final perdeu (mas fez 40% dos votos). Cristina Graeml perdeu para uma coalizão ampla que reuniu a máquina do Governo do Estado, da Prefeitura de Curitiba e amplos setores, da esquerda à parte da direita bolsonarista, sob a liderança de Ratinho Júnior e de Rafael Greca, que estava saindo da prefeitura municipal.
Prova da capacidade sedutora de Ratinho Júnior é que a inimiga de ontem, Cristina, hoje é sua aliada, e talvez candidata ao Senado pela coalizão governista.
Esta coalizão hoje está rachada. O governador Ratinho Júnior e Rafael Greca estão em campos diferentes. Alexandre Cury, o líder municipalista e favorito dos prefeitos do interior, observa os acontecimentos. Ele está no banco de reservas, mas sabe que é melhor do que o titular, e está tinindo nos cascos, aguardando sua vez. O candidato do Governador, Sandro Alex, ainda deve provar sua viabilidade. Mas a política é como nuvem, como ensinam os mineiros.
A questão em jogo transcende os limites da província do Paraná. Trata-se de uma engenharia política que, se bem-sucedida, demonstrará ao Brasil a possibilidade de uma terceira via, longe do radicalismo bolsonarista e do lulo-petismo que domina a política brasileira. Mas esta possibilidade está nas mãos do governador Ratinho Júnior. Para isso, ele deverá abrir espaço a outras forças políticas, seus aliados, que aguardam os acontecimentos. Ele agirá como um estadista ou como líder de sua própria facção?
No próximo artigo: O esfarelamento das alianças de Ratinho Jr. Alexandre Cury e Rafael Greca.
FONTE E LINK DA MATÉRIA DO SITE https://www.dialeticos.com/post/fl%C3%A1vio-bolsonaro-vem-a-curitiba-para-com%C3%ADcio-com-s%C3%A9rgio-moro-ratinho-jr-bota-o-bloco-na-rua